O Dia em que Oxum Desarmou a Fúria de Ogum no Coração da Floresta
Quando Ogum se refugiou nas matas e o mundo parou, nem o fogo nem as armas puderam convencê-lo a voltar. Descubra o itã sagrado do resgate de Ogum pela doçura e astúcia de Oxum.
Quando as 16 grandes divindades masculinas decidiram governar o mundo sem a presença feminina, a Terra secou, os ventos cessaram e a vida definhou. Descubra como a força cósmica de Oxum restaurou a ordem do universo segundo o Odu Oshe Tura.
Fonte Canônica de Ifá: Este itã sagrado está registrado nas escrituras do Odu Oshe Tura (239. Oshe Tura / Oshe Otura, Patakí 1: “Por qué Oshe Tura se escribe en la parte derecha del tablero” e Patakí 5: “El Ashé de Oshe Tura”), no Tratado Enciclopédico de Ifá.
No princípio dos tempos, quando as forças primordiais desceram do espaço espiritual (Orum) para ordenar e povoar a Terra material (Ayé), Olodumarê enviou os dezessete grandes emissários divinos.
Entre eles estavam os guerreiros mais temidos, os construtores mais habilidosos e os guardiões dos elementos: Ogum com seu ferro, Xangô com seu trovão, Obatalá com a criação das formas, Orunmilá com o saber dos oráculos, e apenas uma única mulher: Oxum, a senhora do poder misterioso da gestação, da doçura e da sabedoria oculta das Grandes Mães (Iyami Eleko / Iyalodê).
Este é o relato de como o orgulho masculino quase destruiu toda a existência e como a dignidade da Grande Deusa provou ser o coração pulsante do cosmos.
Ao chegarem ao mundo terreno, os dezesseis Orixás masculinos começaram a organizar os territórios, erigir templos, traçar caminhos nas matas e realizar os grandes conselhos deliberativos.
Porém, intoxicados pelo sentimento de força física e autoridade bélica, os dezesseis líderes cometeram um erro fatal: excluíram Oxum de todas as reuniões e decisões sagradas.
Eles se reuniam em assembleias fechadas, faziam sacrifícios e distribuíam funções entre si, dizendo com desdém:
“Oxum é apenas uma mulher delicada. Ela cuida de suas águas e de seus enfeites, enquanto nós, os homens fortes, governamos as leis e os destinos do mundo.”
Oxum não protestou, não gritou e não implorou por um lugar à mesa. Com a nobreza e o silêncio de quem conhece o próprio poder primordial, recolheu-se às margens de suas fontes límpidas e cruzou os braços em contemplação.
Não demorou para que as consequências daquela exclusão começassem a devastar a Terra:
A doença, a esterilidade e a fome generalizada cobriram a Terra com um manto cinzento de desolação.
Desesperados com o fracasso de todos os seus esforços e sem compreender por que suas invocações não tinham mais poder, os dezesseis Orixás reuniram-se e enviaram uma delegação ao topo do céu supremo para consultar Olodumarê.
Ajoelhados perante o trono da Divindade Suprema, eles lamentaram:
“Pai da Criação, o mundo que nos entregaste está perecendo! A terra secou, os partos cessaram e os nossos ebós não sobem ao céu! Que pecado cometemos para que o Axé tenha desaparecido de nossas mãos?”
Olodumarê contemplou a delegação com serenidade severa e perguntou:
“Quando descestes ao mundo, quantos éreis ao todo?”
Eles responderam:
“Éramos dezessete, Grande Pai.”
Olodumarê fitou-os e inquiriu:
“E onde está a décima sétima divindade? Por que vejo apenas dezesseis homens diante de mim?”
Envergonhados, os chefes baixaram a cabeça e confessaram que haviam deixado Oxum de fora de seus ritos por julgarem que a presença feminina não era necessária para os assuntos de Estado e de governo.
Olodumarê então sentenciou a verdade eterna da cosmologia:
“Homens tolos! Vós fostes dotados de força e estrutura, mas foi a Oxum que entreguei o Axé da fertilidade, da fecundação e da continuidade da vida! Sem o princípio feminino, a semente não vira fruto, a prece não vira resposta e o mundo se torna pó! Retornai imediatamente à Terra, ajoelhai-vos perante Oxum, pedi-lhe perdão e atendei a tudo o que ela exigir. Se ela vos perdoar, a vida retornará; se ela recusar, o vosso mundo perecerá na escuridão!”
Os dezesseis Orixás retornaram à Terra cheios de temor e humildade. Foram em procissão até as águas de Oxum, levando presentes de ouro, tecidos finos, mel silvestre (Oñí) e as mais profundas canções de louvor.
Ajoelharam-se na lama às margens do rio e suplicaram:
“Grande Mãe, Iyalodê, senhora do Axé que tudo nutre! Reconhecemos a nossa cegueira e o nosso erro imperdoável. Sem vós, nós nada somos! Retornai ao conselho divino e governai ao nosso lado!”
Oxum, em sua infinita sabedoria maternal, aceitou as súplicas e perdoou os seus irmãos. Ela tocou a superfície das águas com as pontas dos dedos e, no mesmo instante:
Naquele dia sagrado, nasceu o poderoso signo Oshe Tura, a manifestação de Ifá que representa a encarnação do Axé de Oxum e a ponte obrigatória que leva todas as oferendas da Terra diretamente ao céu.
Por determinação direta de Olodumarê após esse acontecimento sagrado:
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