Exu é chamado guardião dos caminhos por sua relação com as passagens, os encontros e a comunicação entre as pessoas e os Orixás. Um caminho, nesse sentido, também pode ser uma oportunidade que surge por meio de alguém.
O jovem Yuno encontrou uma dessas oportunidades ao chegar a uma porta. Queria trabalhar uma terra abandonada, e foi Elegbá quem o recebeu e o conduziu até Orunmilá. Mais tarde, quando a vida mudou, Yuno passou a tratar com desprezo aquele que o havia ajudado.
Esse é o conflito de um itã/pataki de Ika Fefe (Ika Iwori). A história convida a pensar no que acontece quando o orgulho apaga a memória dos encontros que tornaram uma conquista possível.
Exu, Eshu e Elegbá: os nomes desta história
Neste texto, usamos Elegbá ao narrar o itã/pataki e Exu na apresentação ao leitor brasileiro.
Nomes, caminhos e relações entre Eshu e Elegguá recebem tratamentos próprios em diferentes tradições, preservando a riqueza dessa sabedoria ancestral.
Se Ifá é novo para você, um Odu pode ser compreendido como um caminho de sabedoria que reúne histórias e orientações sobre a vida. O pataki é um desses relatos. Há uma introdução em o que é Odu em Ifá.
Yuno encontra uma porta aberta
Yuno vivia com os pais e desejava transformar sua vida. Partiu em busca de uma oportunidade e encontrou terras sem cultivo. Ao perguntar por elas, ouviu que ninguém conseguiria obtê-las.
Mesmo assim, procurou o proprietário. Quem o recebeu à porta foi Elegbá, que o levou à presença de Orunmilá.
O jovem explicou que queria trabalhar aquelas terras. Orunmilá perguntou se ele assumiria a tarefa e, diante de sua disposição, ofereceu a terra e o necessário para cultivá-la.
Yuno começou a trabalhar. Em alguns meses, o lugar estava transformado. O esforço do jovem era real, assim como a ajuda que havia recebido para começar.
A primeira perda e o recomeço
Um período de mau tempo destruiu a plantação. Yuno voltou a Orunmilá e contou o ocorrido.
Na narrativa, a orientação para recomeçar incluía um cuidado dirigido a Elegbá, aquele que havia permitido sua entrada, e a Ifá. Yuno acolheu a orientação e retornou à terra.
As colheitas seguintes foram abundantes. A vida do jovem prosperou, e a experiência que antes parecia interrompida ganhou continuidade.
Nesse ponto, a história muda de direção. O problema passa a ser a maneira como Yuno olha para sua própria conquista.
Quando o orgulho apaga a gratidão
Com o passar do tempo, Yuno começou a se envaidecer. Ao encontrar Elegbá, tratou-o com desprezo. Elegbá levou sua queixa a Xangô.
O relato volta a colocar Yuno diante de Orunmilá. A orientação agora era reconhecer sua conduta, pedir perdão e cuidar da relação com Elegbá. Yuno atendeu ao que foi indicado, e suas colheitas se resolveram.
A conclusão do itã/pataki é direta: quem recebe ajuda precisa guardar respeito por aqueles que tornaram seu caminho possível.
O que significa abrir caminhos nesse pataki?
A porta da casa de Orunmilá é uma imagem importante. Yuno precisou de iniciativa para chegar até ela, de Elegbá para atravessá-la e de Orunmilá para encontrar uma oportunidade de trabalho.
A história permite observar três aspectos de um caminho:
A disposição de começar: Yuno procurou uma possibilidade mesmo depois de ser desencorajado.
O reconhecimento dos encontros: sua iniciativa encontrou a ajuda de outras pessoas e divindades.
O cuidado depois da conquista: a gratidão precisava continuar quando a vida melhorou.
Nesse relato, abrir caminhos envolve também aprender a caminhar em relação com os outros. A reflexão pode alcançar o trabalho, as amizades e a vida em comunidade, sem reduzir o ensinamento a uma fórmula de sucesso.
A história explica por que Exu é saudado primeiro?
A versão de Ika Fefe dá destaque ao reconhecimento de Elegbá antes do recomeço de Yuno e após seu gesto de desprezo. Ela ajuda a refletir sobre a precedência daquele que recebeu o jovem e abriu a passagem até Orunmilá.
O relato, porém, não narra a origem de todas as saudações a Exu. Uma outra história, sobre a ajuda de Elegguá a Olofi, está em por que Exu é saudado primeiro. São narrativas diferentes, que ajudam a compreender seu lugar na tradição.
O lugar de Exu nas cerimônias deve ser compreendido nos fundamentos de cada tradição. Para conhecer outros aspectos dessa divindade, continue na página de Exu.
O que cabe à reflexão individual?
Uma pergunta que a história deixa é: quem eu deixei de reconhecer depois que minha vida mudou? Outra é como acolher uma ajuda sem apagar o próprio esforço nem o esforço de quem esteve ao lado.
Essas perguntas podem acompanhar a leitura. Já uma dificuldade no trabalho ou uma perda pessoal, isoladamente, não permite concluir que Exu esteja descontente. O ensinamento do relato e a orientação para uma pessoa são coisas que precisam de contexto.