O leão e o guizo de Orunmilá: o itã/pataki da humildade em Baba Ejiogbe
Julgando-se invulnerável e acima das fraquezas da terra, o leão recebeu um sino no pescoço. Conheça a lição de Ifá em Baba Ejiogbe sobre a arrogância, a vulnerabilidade e os limites da força bruta.
Baba Ejiogbe é o primeiro e mais eminente entre os dezesseis Odus mestres de Ifá. Sendo o princípio da luz, da cabeça erguida e da autoridade soberana, guarda também em seu arcabouço a advertência mais severa contra o deslumbre do poder: quem se julga invulnerável cria a própria armadilha que o derruba.
O itã/pataki do leão e de Orunmilá aborda esse abismo com uma precisão psicológica surpreendente.
O rei da floresta e a ilusão da invulnerabilidade
Conta o itã/pataki que o leão era reconhecido como o monarca supremo da selva. Temido pelos predadores, venerado pelos animais menores e dono de uma musculatura prodigiosa, acreditava que nada no céu ou na terra poderia atingir sua majestade.
Certo dia, em suas andanças pelas cercanias das aldeias humanas, encontrou-se com Orunmilá. O sábio de Ifá, fitando a postura arrogante do felino, disse-lhe com voz pausada:
“Grande rei, tua força é admirável e tua juba impõe respeito. Mas não te enganes: ninguém na terra, por mais alto que esteja coroado, escapa das três grandes provas do destino: a fome, a carência e a necessidade. Se não cuidares do teu caráter e não reverenciares o invisível, experimentarás o peso dessas três aflições.”
O leão soltou um rugido estrondoso que fez estalar os galhos das árvores e zombou do ancião:
“Eu sou o senhor da floresta! Minhas garras rasgam qualquer carne, meus dentes quebram qualquer osso e o meu rugido silencia a savana inteira. A fraqueza é o quinhão dos medíocres; eu tenho tudo e nada me faltará!”
Orunmilá calou-se e deixou o animal seguir o seu curso.
A aliança com Elegbá e o sino no pescoço
Sabendo que as palavras de advertência não penetram onde a vaidade construiu muralhas, Orunmilá combinou com Elegbá uma intervenção pedagógica.
Elegbá cruzou o caminho do leão e, fingindo admirar sua grandiosidade, insinuou que, para tornar sua realeza indiscutível e protegida por todas as eras, seria prudente fazer uma oferenda com Orunmilá. O leão, seduzido pela promessa de uma glória que durasse para sempre, resolveu ir à casa do adivinho.
Orunmilá recebeu o animal com cortesia. Realizou o ritual solicitado para a preservação de sua força, mas, como parte necessária da consagração, amarrou ao pescoço do soberano um pequeno guizo de bronze (cencerro), desses usados pelos pastores para vigiar o gado na pradaria.
O leão, despreocupado com o artefato de metal que julgou ser apenas um adorno distintivo, despediu-se orgulhoso e retornou para as matas para caçar.
O barulho que afugenta a vida
Foi quando a realidade começou a mudar.
Ao avistar um rebanho de antílopes pastando calmamente no vale, o leão abaixou o corpo, esticou as patas e iniciou a marcha rasteira e invisível que sempre o consagrou como caçador letal.
Porém, ao dar o primeiro passo suave na relva: plim-plim.
O som cristalino do sino ecoou na quietude do cerrado. As gazelas ergueram as orelhas em alerta. O leão deu mais dois passos cautelosos: plim-plim, plim-plim.
O bando inteiro disparou em fuga frenética, levantando poeira e desaparecendo no horizonte muito antes que o felino pudesse saltar.
O leão tentou novamente à tarde, depois ao anoitecer e mais uma vez sob a luz das estrelas. Tentou rastejar contra o vento, tentou emboscar junto aos poços de água, tentou correr em alta velocidade. Mas quanto mais tentava, mais o guizo balançava; quanto mais agressivo se tornava, mais alto o bronze ressoava, alertando toda a criação de que o perigo se aproximava.
Os dias transformaram-se em semanas. O leão não conseguiu caçar uma única presa. A fraqueza começou a tomar suas patas soberbas; as costelas despontaram sob a pele ressequida; o pelo dourado perdeu o viço e a fome torturante começou a corroer seu estômago.
Aquele que zombara dos avisos de Ifá sentiu na própria carne as três dores que jurara jamais conhecer: a fome no corpo, a miséria nas forças e a necessidade de socorro.
A cura pela humildade e a verdadeira majestade
Arrastando-se com dificuldade, o monarca derrotado voltou à cabana de Orunmilá.
Não havia mais rugidos altivos nem passos pesados. O leão curvou a cabeça até o chão, deitou-se aos pés do sacerdote e disse com voz rouca e entrecortada:
“Orunmilá, perdoa minha arrogância. Tu disseste a verdade: a força das minhas patas e a glória do meu nome de nada me serviram. Conheci a fome, a fraqueza e a vergonha. Suplico que retires este guizo do meu pescoço, pois compreendi que ninguém na terra é autossuficiente.”
Orunmilá aproximou-se com compaixão. Desatou a corda, retirou o guizo de bronze e proferiu sua orientação:
“O guizo não foi colocado para destruir a tua força, mas para mostrar que a soberba faz barulho demais. A arrogância anuncia a própria queda antes mesmo do golpe ser desferido. A verdadeira realeza sabe caminhar em silêncio, respeitar os limites do mundo e honrar o destino.”
O leão alimentou-se, recuperou o vigor de seu corpo e pôde caçar novamente com êxito. Mas, daquele dia em diante, governou a savana com a prudência de quem aprendeu que nem a maior das feras é maior do que a sabedoria que sustenta a criação.
O que a história nos ensina com profundidade
Este itã/pataki de Baba Ejiogbe oferece uma radiografia precisa da autodestruição provocada pelo orgulho:
A arrogância como autossabotagem: O guizo que condenou o leão à fome não era uma arma externa; era o símbolo do ego ruidoso. Pessoas que necessitam proclamar sua superioridade, que se julgam inalcançáveis pelo erro e que menosprezam a prudência produzem tanto ruído emocional que afastam de si a simpatia, as oportunidades e a própria subsistência.
A universalidade da vulnerabilidade humana: Não existe cargo, patrimônio, beleza ou poder institucional que imunize um ser humano contra os imprevistos da existência. Reconhecer a própria fragilidade não é sinal de covardia, mas a condição primeira para agir com sabedoria e empatia.
A nobreza do recuo e da retratação: O leão salvou a própria vida porque teve a grandeza de voltar atrás, reconhecer a insensatez e pedir ajuda. A teimosia estéril de preferir definhar a admitir um erro é a marca dos tolos; o sábio curva a cabeça perante a verdade para poder reerguê-la com honra.
O que depende de orientação individual
O sinal de Baba Ejiogbe fala de liderança, coroação e novos começos, mas também alerta para quedas abruptas motivadas por excesso de confiança e desprezo pelas orientações ancestrais.
Se você está assumindo novas responsabilidades, gerencia equipes ou sente que projetos importantes estão escapando de suas mãos apesar de todo o seu esforço, uma consulta ao oráculo de Ifá permite examinar se o seu momento pede avanço vigoroso ou o recolhimento e a discrição necessários para não afugentar a sua própria prosperidade.