O Reino da Eterna Cura de Iemanjá: A Fonte da Vida, o Resgate de Oxum e a Lição do Odu Oddi Ika
Em um reino onde a morte e a enfermidade não tinham poder, Iemanjá guardava a fonte secreta das águas da cura. Conheça o patakí do Odu Oddi Ika sobre a recuperação de Oxum, a perda da disciplina e o triunfo da Rainha dos Mares.
Você já imaginou uma terra onde as enfermidades do corpo e da alma não encontram morada, e onde o sopro da morte (Ikú) jamais consegue tocar os habitantes?
Nas escrituras sagradas do Odu Oddi Ika, preserva-se a narrativa mística do tempo em que Iemanjá (Yemayá) reinava soberana sobre uma comunidade abençoada. No coração de seu palácio, brotava uma nascente sagrada cujas águas puras guardavam o segredo primordial da longevidade, da saúde e do vigor espiritual.
Esta é a profunda história sobre a generosidade de Iemanjá para com sua irmã Oxum, os perigos da perda de vigilância espiritual e o triunfo do axé das águas que tudo purificam.
O Reino Onde Não Havia Morte nem Doença
Conta o itã/pataki de Oddi Ika que Iemanjá governava um reino próspero e harmonioso à beira-mar. Diferente de todas as outras terras conhecidas pelos homens, naquele território a população desconhecia a debilidade das doenças (Arun) e o pranto do luto.
O segredo de tamanha graça repousava no pátio central do palácio da Rainha: uma fonte cristalina, consagrada com as orações e o poder de Ifá.
Por decreto de Iemanjá, todos os habitantes tinham permissão e incentivo para colher e beber daquelas águas diariamente. O líquido sagrado mantinha o corpo são, o pensamento límpido e o Ori (a cabeça espiritual) perfeitamente alinhado com a luz de Olodumarê.
A Chegada de Oxum e o Resgate Fraterno
A muitas léguas de distância daquele paraíso, vivia sua irmã mais jovem, a bela Oxum.
Passando por um ciclo de severas provações, Oxum viu-se desamparada: perdera suas posses, caíra em extrema pobreza e fora acometida por uma enfermidade pulmonar gravíssima que a impedia de respirar e quase a conduzia à sepultura.
Sem forças e sem ninguém a quem recorrer, Oxum reuniu seus últimos suspiros e empreendeu uma longa peregrinação até as portas do palácio de Iemanjá.
Ao ver o estado deplorável de sua irmã, o coração maternal de Iemanjá encheu-se de compaixão. Sem hesitar um só instante:
Deu-lhe abrigo caloroso e vestes limpas;
Conduziu-a imediatamente à esteira de adivinhação de Ifá;
Ministrou-lhe as ervas sagradas preparadas nas águas vivas da fonte do palácio.
Em pouco tempo, o peito de Oxum desobstruiu-se, o brilho dourado de sua pele retornou e sua saúde foi plenamente restabelecida.
A Partida da Rainha e a Quebra da Confiança
Algum tempo após a cura de Oxum, Iemanjá recebeu um chamado inadiável de Ifá para viajar a uma terra distante e cumprir obrigações litúrgicas sagradas.
Precisando deixar alguém no comando provisório de sua casa e de seus súditos, Iemanjá confiou o reino a Oxum, deixando uma orientação expressa e irrevogável:
“Minha irmã, deixo em tuas mãos a guarda deste palácio. Lembra-te sempre do pilar que sustenta esta terra: a fonte das águas vivas jamais pode ser fechada aos nossos filhos. Todos têm o direito sagrado de beber dela diariamente para continuarem vivos e protegidos.”
Porém, com a ausência de Iemanjá, a vaidade e o deslumbramento tomaram conta do ânimo de Oxum.
Buscando compensar os anos de escassez que havia sofrido, Oxum abriu os salões do palácio para festividades ininterruptas e banquetes ostentosos. E para impedir que o povo adentrasse o recinto sagrado e testemunhasse os excessos cometidos na corte, Oxum trancou os portões da fonte com pesadas correntes e proibiu os súditos de tocarem na água milagrosa.
O Retorno das Sombras e o Aviso de Xangô
As consequências daquela negligência foram imediatas e avassaladoras:
Privados do contato diário com as águas de Iemanjá, os cidadãos começaram a adoecer rapidamente;
A tosse, a febre e as dores alastraram-se pelas ruas;
Pela primeira vez na história daquele reino, a morte atravessou as fronteiras e começou a ceifar vidas.
Ao passar por aquela região e notar o cheiro de luto e a fumaça das desordens, o grande rei justiceiro Xangô compreendeu a gravidade da situação. Sem perder tempo, Xangô montou em seu cavalo veloz e cruzou as florestas até encontrar Iemanjá em sua jornada.
Ao tomar ciência de que seu povo estava perecendo e que sua fonte sagrada havia sido aprisionada, a Rainha dos Mares aprontou-se incontinenti para o regresso.
O Canto e o Sapateado Sagrado de Iemanjá
Quando Iemanjá alcançou os limites de sua cidade, uma multidão de homens, mulheres e crianças convalescentes correu em prantos ao seu encontro.
Iemanjá não se deixou abater pelo desespero. Com a majestade e a autoridade que lhe são próprias, a Deusa do Mar começou a executar seu sapateado ritual sagrado, dançando com passos firmes que faziam a terra vibrar enquanto entoava o lendário cântico preservado em Ifá:
“Ibobefe Eyi Boreo Aglona Mirawa” “Ibobefe Eyi Boreo Aglona Mirawa”
Ao som da voz poderosa da Rainha e das batidas de seus pés sobre o solo, a energia pesada que cobria a cidade começou a dissipar-se como névoa ao sol. O povo encheu-se de esperança e seguiu os passos de sua soberana até as portas do palácio.
Ao deparar-se com o descalabro, Iemanjá confrontou Oxum com severidade incontestável, destituiu-a da liderança e rompeu os grilhões que aprisionavam a fonte, devolvendo o fluxo da água límpida a cada um de seus filhos. Naquele mesmo dia, a saúde foi reestabelecida em todos os lares e a paz voltou a reinar sobre a terra.